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Artigo - Os artistas são prejudicados pelo download gratuito de suas músicas através da Internet?

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Durante toda a história da humanidade, as tecnologias sempre foram responsáveis por profundas mudanças no modo de como o homem enfrenta a sua realidade e como ele age para adaptar-se a novos paradigmas.
Neste ensaio, será abordado como a Internet – uma dessas recentes tecnologias - transformou totalmente o modo de comercialização e divulgação de músicas no cenário mundial. Transformação que envolve diretamente os artistas responsáveis por essas músicas, que se viram de repente em meio a um impasse: eles são ou não prejudicados pela onda de downloads gratuitos que se expandiu de forma avassaladora na web nesses últimos anos?
Antes de responder a questão, vou apresentar os dois elementos primordiais que fazem parte do funcionamento desse novo panorama.

Download Gratuito

Download – ou “baixar” - é a “transferência de dados de um computador remoto para um computador local”, segundo a enciclopédia Wikipédia. Especificamente neste ensaio, o termo download gratuito se refere ao ato de se apoderar de uma música digital através de um computador com conexão com a Internet. O download gratuito pode ser feito de forma ilegal, sem pagar ao artista pelos direitos da música ou legal, quando o arquivo de som é liberado pelo seu autor.

O MPEG-1 Layer 3
O berço de um dos protagonistas dessa discussão foi a Alemanha. Em 1991, depois de mais de duas décadas de estudos, pesquisadores alemães criam o MPEG-1 Layer 3 – ou MP3 – um formato de compressão de áudio que possibilita que uma música fique com 1/10 do seu tamanho, em relação a outros formatos de compressão, sem significativas perdas de qualidade.

O formato conseguiu grande aceitação na Internet, já que seu reduzido tamanho permitia um número maior de downloads em menos tempo. Com as conexões atuais, dezenas de vezes mais rápidas que as do início do novo milênio, toda a discografia de um artista pode ser obtida em questão de algumas horas. Por exemplo, uma conexão padrão do início dos anos 2000, de 56kbp/s, baixava uma música com três minutos de duração em aproximadamente 30 minutos. Hoje, com uma acessível conexão de 600kbp/s, o tempo cai para 3 minutos.

Difusão dos downloads gratuitos

Considera-se que o download gratuito de músicas teve seu ponto de expansão em 1999, com a criação de um software chamado Napster, programado pelos norte-americanos Shawn Fanning e Harry Barry. O programa permitia ao usuário obter – sem nenhum custo - cópias de MP3s de artistas e bandas do mundo inteiro, alocadas nos servidores da empresa Napster Inc.. A novidade se popularizou rapidamente, atraindo a atenção de todos envolvidos no meio musical. Ainda mais depois que, para desespero principalmente das grandes gravadoras, a vendagem de álbuns entrou em processo de declínio que durou sete anos, recuperando-se – mesmo que timidamente – apenas em 2007.

Diante do novo panorama, as gigantes empresas da indústria fonográfica entraram em guerra contra esse tipo de atividade, alegando que seus artistas sairiam prejudicados pelos downloads ilegais, pois não mais lucrariam com a venda de seus CDs. Alguns artistas, talvez sob pressão de suas contratantes, resolveram agir e também entraram na batalha.

Artistas contra a prática

Uma dessas bandas foi o Metallica, que não aprovou a iniciativa de suas músicas serem espalhadas livremente pela Web e, no dia 20 de abril de 2000, entrou com um processo contra a Napster Inc., alegando infração de direitos autorais. Diversos artistas – [BP:DVD]Mandonna, Elton John, Lou Reed e Dr. Dre[/BP] – declararam apoio ao grupo, que venceu o julgamento, obrigando a retirada de todas as músicas do Metallica dos servidores da empresa.

Apesar da vitória nos tribunais, a banda enfrentou um incômodo revés. Grande parte dos fãs espalhados ao redor do globo reprovaram a atitude, alegando que o real objetivo de banda não era proteger os direitos autorias, mas sim de não ter prejuízos com a baixa na venda de seus CDs. Alguns fãs mais radicais chegaram até mesmo a boicotar todos os produtos que estampavam o nome do grupo.

Essa atitude extrema, em minha opinião, foi devido a mesquinharia de seus ídolos, já que – ao contrário do que as gravadoras alegam - a participação da banda nos lucros da vendagem de seus álbuns é quase nula. Quase todo o dinheiro arrecadado com a venda de um cd se divide entre gravadora, ponto de distribuição e ponto de venda.

Ao assinar um contrato para gravação de um disco, é comum o empregador estipular um valor fixo pelo trabalho; esse sim, o real lucro que a banda obtêm, junto com shows e royalties obtidos através da venda de produtos com seu nome.
Muitos artistas não cederam a pressão feita pelas gravadoras e as abandonaram, aderindo a causa dos downloads. Eles perceberam que essa nova tendência não poderia ser simplesmente suprimida por um ou outro grande poder e resolveram se adaptar a ela, com soluções criativas e inovadoras.

Exemplo é o da banda [BP:DVD]Radiohead[/BP], que lançou no início de outubro de 2007, o álbum “In Rainbows”. O grande diferencial é que, ao entrar no site da venda, a pessoa escolhe quanto quer pagar pelo disco, tendo a oportunidade até mesmo de não pagar nada por ele. Em uma semana foram registrados mais de um milhão de downloads, gerando um lucro líquido para a banda de cerca de sete milhões de euros, um valor muito maior do que eles conseguiriam assinando um contrato com uma grande gravadora.

Esse novo modo de lançar músicas gerou opiniões que foram do apoio ao repúdio. Em entrevista para o site Billboard, o ex-baixista da banda Kiss e crítico ferrenho dos downloads gratuitos, Gene Simmons, deu a seguinte declaração:

“[…]E esse não é o modelo de negócios que funciona. Abrir uma loja e dizer ‘Venham, paguem quanto quiserem.’ Voces tão malucos? Você realmente acredita que esse modelo funciona?”

Já o editor da publicação Wired, Chris Anderson em entrevista a revista Super Interessante, conta que achou a idéia brilhante:

 

“[…]e uma tendência. Esse tipo de flexibilidade só é possível porque o custo de produção e distribuição é quase zero. Se as pessoas pagarem zero, o Radiohead não perde dinheiro. Porque, como o custo é zero, eles podem cobras de nada a infinito. Se o custo fosse UU$ 10, eles não poderiam cobrar menos que isso.[…]”

Em relação a opinião de Simmons, ela expressa bem o motivo de a indústria fonográfica sofre com a queda de seus lucros: falta de visão para entender e se adaptar ao mercado e as novas tecnologias. É ignorância comparar a iniciativa com Radiohead com uma loja que vende seus produtos ao valor que o consumidor escolher. São cenários diferentes quase que na totalidade, com importantes características divergentes entre si.

Com o trecho citado acima, não se sabe exatamente a que exatamente Anderson se refere ao dizer “custo de produção é quase zero”. Na minha concepção, ele considera que o Radiohead possua um estúdio próprio para sua gravações – o que provavelmente está correto – eliminando assim, qualquer custo.

Até agora apresentei dados e opiniões apenas sobre grandes bandas, com um público fiel e já formado que, hipoteticamente, teriam mais condições – financeiramente falando – de se adaptar a nova realidade dos downloads gratuitos pela Internet e se manterem sem uma grande gravadora.

Mas, e como ficam as bandas que procuram um lugar nos palcos da fama? Como elas cresceriam e seriam contratadas em um cenário onde não dariam lucros para a grande indústria fonográfica? É o que vou mostrar a seguir.

Sucesso através do boca-a-boca virtual
No ano de 2005, a banda britânica Arctic Monkeys, até então desconhecida do grande público, lança o seu disco de estréia “Whatever People Say I Am, That’s What I Am Not”. Para a surpresa de todos, “Whatever…” vende 120 mil cópias somente no dia da estréia, um recorde histórico, já que nenhuma banda conseguiu tal feito. Em 2007, o grupo lança seu segundo cd, intitulado “My Favorite Worst Nightmare”, que novamente bate recordes, vendendo 85 mil cópias no primeiro dia. Em ambos os casos, todas as faixas dos CDs circularam pela rede até pelo menos um mês antes do lançamento do cd físico. O estouro nas vendas, é claro, refletiu na quantidade de shows, entrevistas e aparições na mídia, elevando a números também muito altos.

A banda brasileira Cansei de Ser Sexy – ou CSS – também alcançou lugar de destaque na mídia musical especializada através do compartilhamento de suas músicas pela rede. O CSS, apesar de não possuir bons números nas vendas de cd, não culpou o MP3 por isso. Bem ao contrário. O primeiro álbum da banda vinha acompanhado de um CD-R (popularmente conhecido como “cd virgem”) que, segundo os próprios músicos, serviria para que as pessoas que comprassem o cd fizessem uma cópia do álbum e presenteassem alguém; uma singela homenagem a distribuição das músicas pela Internet, que alçou o grupo a fama e a turnês na Europa, acompanhando o Klaxons, outra banda que se destacou através da web, mesmo sem nenhum álbum físico lançado.
Temos acima exemplos de como uma banda pode “estourar” – e lucrar - com o download pirata de suas músicas na Web. Com recentes tecnologias implementadas na Internet, qualquer pessoa possui total liberdade para criar um espaço – um blog ou um perfil em uma rede de relacionamento como o Orkut, por exemplo – e colocar ali todas as suas opiniões. Opiniões essas que podem ser acessadas e discutidas por outros internautas do mundo inteiro.

A combinação desses dois fatores – facilidade em expor opiniões e facilidade em discuti-las – criou uma poderosa rede de informações que usa o boca-a-boca virtual para difundir e discutir os mais diversos assuntos com uma velocidade impressionante.
Mas como uma banda “novata” pode tirar proveito disso?

Digamos que o grupo X lance um CD físico – através de um selo independente, o que implica custos de produção mais baixos – com três músicas. Essas músicas rapidamente caem na Internet, colocadas por um fã da banda. Esse fã escreve em um blog sobre o lançamento do grupo. Diversas pessoas, com gostos em comum visitam esse blog, lêem a recomendação e escutam as composições. Os que gostarem do som, provavelmente pedirão mais músicas, escreverão em seus blogs, irão aos shows da banda e talvez até comprem o disco para ajudar no crescimento profissional dos músicos. Foi mais ou menos o que ocorreu com o Arctic Monkeys.

Em minha opinião, sem o vazamento dessas canções na Internet e sem esse grande boca-a-boca criado através dessas redes de informações e discussões, Arctic Monkeys, CSS e Klaxons corriam o risco de nunca ficarem conhecidos pelo grande público e, em conseqüência, não bater os recordes que bateram nas vendas de CDs ou rodar o mundo através de turnês.
Não se pode fechar os olhos e negar que a prática dos downloads não seja prejudicial aos artistas. Ela o é, mas de maneira muito sutil e quase imperceptível, se comparada às vantagens que ela traz aos artistas - tanto novas estrelas quanto bandas que já gozam de fama mundial.

Todos eles têm prejuízos com as baixa nas vendas de seus CDs. Mas a partir do momento que os downloads e as boas opiniões acerca de seu trabalho cresçam na Web, as chances de se lucrar com turnês e vendas de seus produtos e potencializada, cobrindo os custos das vendagens de seus álbuns.

Como já dito anteriormente, a atitude mais correta é a de se adaptar aos novos tempos. A Internet veio pra ficar e deu um suporte nunca antes visto as pessoas comuns, como eu e você que, juntas, possuem poder o bastante nas mãos para moldar e transformar os paradigmas cada vez mais frágeis que nos cercam.

2 Responses to “Artigo - Os artistas são prejudicados pelo download gratuito de suas músicas através da Internet?”

  1. Download gratuito de mp3 prejudica o artista?…

    Um ensaio que discute a polêmica questão dos downloads ilegais/gratuitos na Internet e como os artistas são envolvidos por isso…

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